(Foto Ilustrativa)
Sofrer por antecipação ou viver uma ilusão
de algo que ainda está por vir nos paralisa
de tal forma que nos distancia da realidade
Publicada: 29/09/2016 (08:10:47)
Atualizada: 02/12/2016 (12:52:37)
Vou começar esse constructo com a pergunta de um paciente: “Como faço para deixar de ter ansiedade?”. A resposta foi: “Você nunca deixará de ter ansiedade”. E explico porquê. A Ansiedade é um processo fisiológico, faz parte do nosso organismo. Quando estamos andando na calçada, por exemplo, e vemos um portão aberto e ao olharmos para dentro avistamos um cão feroz, rangendo, nosso sistema acende uma luz de perigo, ou seja, nosso organismo se mobiliza para luta ou fuga, fazendo nosso coração disparar, as pupilas dilatarem, a respiração aumentar e há, também, aumento na produção de alguns hormônios provocando, através desses, um conjunto de reações que podemos chamar de estresse temporário. Assim, podemos definir que a ansiedade é importante para nosso organismo, ela nos mobiliza, nos tira da inércia, nos move em direção a um objetivo. O que atrapalha é o excesso e a falta dela.
Assim, podemos dizer que a ansiedade exprime o medo, que é o sintoma de uma situação de perigo. E, nós, seres humanos, vivemos sempre diante do dilema de uma escolha, segundo a Gestalt a vida é feita por escolhas, e diante delas aparece o medo que pode estar relacionado ao medo de perder, medo do passado se repetir, medo de não viver no “aqui e agora” uma experiência positiva do passado, medo do futuro, medo do desconhecido. Medo... Medo... Medo...
Diante dessas angústias, recebo com frequência no consultório pessoas que estão vivendo em tempos distantes do presente, distantes do “aqui e agora”, conforme os conceitos da Gestalt. Dessa forma, algumas moram no passado e outras fixas no futuro. Essas lembranças, recordações, imagens cristalizadas de si mesmo, culpas, arrependimentos, lamentações do que deveria ou não ter acontecido geram sentimento de angústia que toma conta do seu eu, roubando-lhe a percepção real do presente, mobilizando de dar o próximo passo. Por outro lado, pessoas que vivem ansiosas com o futuro, que exprimem pensamentos recheados de antecipação de sofrimento ou prazer, também sofrem com a ansiedade.
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O fato é que ficar pensando no passado ou imaginando o que estar por vir como algo melhor ou pior é ilusão, pois dependemos de vários fatores para colhermos o resultado final.
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Investir energia em algo que é incerto ou que passou é o mesmo que cair no vazio e isso aumenta cada vez mais a angústia que gera novos pensamentos, que muitas das vezes são catastróficos, gerando mais angústia e que, por sua vez, gera novo pensamento negativista... Isso é um ciclo vicioso e temos que tomar cuidado, pois esse mecanismo, essa estratégia de enfrentamento da vida, pode ser uma auto sabotagem. Ou seja, sofrer por antecipação ou viver uma ilusão de algo que ainda está por vir nos paralisa de tal forma que nos distancia da realidade, de nossos projetos e isso faz que a gente se perceba incapaz, inútil, frágil e nunca avançamos e, para piorar, pensamos sempre que tudo vai ter um final infeliz, como:
- Não adianta começar dieta mesmo, eu não vou conseguir!
- Não vou estudar, pois não vou passar de ano!
- Não vou me aplicar nesse projeto, porque sei que não vai dar certo.
E assim esses pensamentos nos impedem de caminhar, de desenvolver e de crescer, aspectos importantes que nos fazem melhor, nos trazendo, também, desafios e, sem dúvida, esses enfrentamentos fazem parte da natureza humana.
Tudo parece muito complexo e sem saída para quem vive preocupado, para quem vive com medo, para quem “sente na pele os sintomas físicos que a ansiedade provoca, e não são poucos, eu tive um paciente que tinha vários episódios de vômito e diarreia e diante desse quadro foi hospitalizado para não desidratar, não era virose, tudo por conta do fantasma que o habitava, a ansiedade. Só quem vive dentro desse ciclo que sabe o quanto é ruim e, por outro lado, para quem está de fora julga os medos, os excessos de expectativas como frescura, falta de controle, e não é.
Mas como interromper esse “ciclo vicioso” que parece não ter fim. Como ficar livre desse fantasma?! Primeiramente, procurar ajuda seja de um psicólogo ou psiquiatra, normalmente esses profissionais caminham juntos. E é extremamente importante conhecer a si, o seu verdadeiro Eu, compreendendo seus limites, reconhecer seu potencial e confiar nele, não apenas o potencial criador, mas o regenerador, aquele que diante das dificuldades é capaz de te refazer, te recompor e te colocar frente a frente ao obstáculo, sem medo, enfrentando e refazendo sua percepção. Começar a enxergar que as dificuldades que encontramos pela vida não são só sofrimento, não são barreiras e sim fronteiras para o conhecimento, para desenvolvimento.
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Crescer não significa só passar por coisas boas, mudar de carro, comprar uma casa, mudar de emprego, crescer significa passar por dificuldades e sair melhor ainda daquele processo, mais experiente e mais seguro de que pode, de que venceu! É importante para o cérebro gravar esse sentimento de vitória e de superação.
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Em seguida, é importante estar no controle, no comando do pensamento. E para que isso aconteça precisamos aprender a diferenciar pensar e pensamento, e podemos analisar a diferença fazendo uma comparação com andar a cavalo por exemplo: O pensamento desenfreado, sem direção é como se fosse um cavalo manso, vamos classificá-lo, também, como cavalo “bobo”, aquele cavalo que tentamos guiá-lo, puxamos a rédea para esquerda, só que ele, o cavalo, de tão bobo, sem noção, nos leva para qualquer direção, assim é o pensamento, ele desenfreado nos leva a um ciclo vicioso que nos remete a sentimentos ruins como a angústia, o medo, a insegurança.
Agora um cavalo bom, aquele cavalo que você dá o comando, através das rédeas, indicando para direita e ele segue corretamente, esse sim, podemos comparar com o pensar, que nos direciona, nos guia, nos permite ver realmente como as coisas são. Então, vamos tomar as rédeas de nossas vidas, aprendendo a guiar nossos pensamentos, deixando o pensar agir a nosso favor. É fato que a ansiedade surge porque nosso cérebro está excessivamente excitado por nossos pensamentos desenfreados, então todas as maneiras de diminuir a ansiedade estão ligadas ao fato de permitir relaxar o cérebro, não deixando que ele se excite. E para ajudar nesse processo, deixo um exercício de respiração que é uma forma fisiológica, simples e se torna um instrumento que você pode utilizar para diminuir a velocidade do funcionamento do cérebro e, também, do funcionamento corporal, pois quanto mais lenta, harmônica estiver sua respiração, mais o cérebro vai se acalmando e todo corpo também funciona melhor. Vamos lá:
Então você puxa a respiração de forma bem lenta, inspirando duas vezes e solta o ar de uma forma bem lenta, expirando três vezes, ou seja, em três tempos. Prestando atenção apenas na sua respiração. No ar que entra e no ar que sai. Pode imaginar que conforme você solta o ar os ombros, também, se soltam, ficando leves, soltos e deixando você ainda mais relaxado. E, se por caso, algum pensamento ou barulho desviar você desse processo, não tem problema, recomece de onde você parou e volte a prestar atenção apenas na sua respiração. Repita esse processo, por pelo menos por cinco minutos ou até que se sinta mais tranquilo.
É importante destacar que nenhum método de controle da ansiedade substitui a psicoterapia ou a medicação, claro que você tendo controle, diminuindo o quadro de ansiedade, consequentemente, vai refazendo, ajustando todo seu sistema psíquico e gradualmente seu psiquiatra e psicólogo possam diminuir suas prescrições.
No próximo constructo ainda abordarei esse tema deixando outros instrumentos para ajudar no controle da ansiedade. Até lá!
