(Fotos Ilustrativas)
"Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda" (Cecília Meireles)
O período conhecido como Ditadura Militar eclodiu em toda a América Latina nas décadas de 60 e 70 importando técnicas e aparelhos de tortura, produzindo um complexo aparato de vigilância que cerceava os direitos básicos da população, culminando em violências, desigualdades e mortes. Nesse contexto de censura a luta pela liberdade, infringida pelo Regime, levou para as ruas estudantes e movimentos sociais: negros, feministas, LGBT, dentre outros. Desde então, não se ouviu falar tanto em "liberdade de expressão" quanto agora.
O comediante Rafinha Bastos ao trazer para o centro do picadeiro piadas que legitimam o estupro às mulheres "feias" causou a indignação de muita gente rendendo-lhe alguns processos, o que o humorista classificou de "censura". O seu repertório stand up é "variado", ora versa sobre preconceito, ora sobre termos politicamente incorretos.
Pois bem, proponho a refletirmos:
O que caracteriza a censura? Censura é aquilo que impede a liberdade de expressão. Se consiste na tentativa de suprimir toda e qualquer forma de opinião. A censura no contexto da Ditadura (60/70), por exemplo, restringia por meio da repressão qualquer tipo de manifestação contrária ao Regime autoritário. A opinião suprimida aqui era aquela que rompia com o conservadorismo e com a ideia dominante. Já a censura "moderna", denunciada pelos defensores do riso, é aquela que se recusa a reforçar as visões que são tradicionais e vigentes. Os humoristas mudam com o tempo, mas os alvos da chacota permanecem praticamente os mesmos: negros, homossexuais, gordos, mulheres "feias" que supostamente deveriam ser agradecidas por serem estupradas... "O ataque às minorias é uma regra do humor" [1]. Nesse sentido, temos concepções e percepções distintas acerca de um mesmo termo. O cerne da questão é: em que posição percebo tudo isso?

Comumente quem conta piada de gay é heterossexual. O mesmo acontece com mulheres e negros que estão sempre na mira das chamadas "stand up comedy" comandada, em sua maioria, por homens brancos. Certa vez li no livro de Herbert Daniel que "o bom ator de comédia não ri. E nem tem razão. A torta na cara do gordo doía nele". Nesse sentido, o humor muito além de dialogar com o preconceito das pessoas tem o compromisso político implícito de reproduzir e disseminar, comicamente, as normatizações sociais. Aqueles que fogem a esse padrão preestabelecido estão condenados à invisibilidade ou ao escárnio. O sociólogo Norbert Elias na obra "Os estabelecidos e outsiders", curiosamente observa que: "Um grupo só pode estigmatizar outro com eficácia quando está bem instalado em posições de poder das quais o grupo estigmatizado é excluído".
É possível fazer humor de outra forma

O documentário de Pedro Arantes, "O riso dos outros", expõe de maneira dialogada as interfaces da "liberdade de expressão" daqueles que defendem o riso acima de tudo e todos, como é o caso de Rafinha Bastos e Danilo Gentili; e dos que entendem que essa deve respeitar os direitos do outro. O mais interessante no documentário de 52 minutos é que ele evidencia que é possível fazer humor de outra forma; que tanto pode ser usado para perpetuar os estigmas que levam ao preconceito como também pode ser crítico, analítico e questionador, como os cartunistas André Dahmer e Laerte Coutinho.
Em uma piada como a "mulher feia ser grata ao estuprador" é possível perceber que por detrás dela há uma construção social que impõe padrões estéticos e uma violência simbólica com aqueles que não se enquadram nesse molde. A questão que se coloca a meu ver é a seguinte: É possível haver liberdade na violência e/ou vice-versa?
Liberdade não é uma via de mão única
A linha é tênue e ao recorrer ao humor ultrajante que dissemina as mazelas sociais atuando como reforço das ideias e estruturas dominantes, os ditos humoristas se perdem no conceito de liberdade que tanto defendem como se essa fosse uma via de mão única.
A minha liberdade termina onde começa a de outrem. Cabe a nós pensarmos em que medida nossa liberdade (inter) fere a dignidade humana do outro para saber o limite, afinal, tudo tem limite! E que aprendamos com o velho Marx que "nada do que é humano me é alheio".
[1] Trecho retirado do documentário "O riso dos outros", de Pedro Arantes.
