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O Poder do Discurso

O que há em comum entre ataques homofóbicos, piadas, pânico moral e o post engraçado

Uma imagem aparentemente "inocente" e engraçada, não raras vezes, carrega a mesma ideologia defendida por aqueles que pregam ódio e intolerância a determinados grupos

Viver bem  –  06/02/2013 21:36

Desde tempos remotos o discurso se apresenta como forma de impor uma verdade. Por mais bobo que possa parecer um determinado discurso, este sofre influência das regras sociais institucionalizadas, portanto, possuem legitimidade para validá-lo como "verdade" no meio social. Os discursos atuam como poderosas ferramentas de dominação. Quer um exemplo? O comentário do historiador Heinrich von Treitschke: "Os judeus são a nossa desgraça" (Die Juden sind unser Unglück), publicado numa revista alemã no século XX se tornou lema do nazismo alemão, um dos maiores genocídios da história da humanidade.

A questão é tão séria e complexa que uma das novas táticas da repressão política contemporânea, segundo o artigo de Lúcia Rodrigues, na revista "Caros Amigos", são os processos jurídicos para a intimidação dos discursos não validados. O apresentador José Luiz Datena da Band é um exemplo disso, ao relacionar um crime bárbaro à "ausência de Deus" no programa "Brasil Urgente" no ano de 2010, causou à emissora um processo judicial por infringir a liberdade religiosa resguardada pela Constituição Federal. Curioso, meus amigos ateus nunca tiveram passagem pela polícia.

Bento XVI segue imune

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Já o Papa Bento XVI segue imune com os seus discursos incitando a intolerância religiosa e, sobretudo, sexual - o seu alvo predileto. De acordo com o líder religioso, o casamento homossexual representa uma "ameaça ao futuro da humanidade". Não muito diferente do discurso que classificava como antinatural o casamento inter-racial, ideologia defendida pela mesma Igreja Católica Apostólica Romana até o século XIX.

Como podem perceber, os escopos se modificam com o tempo, todavia, os discursos permanecem praticamente inalterados, biologizando a diferença e colocando o "outro" num patamar de "inferioridade natural".

Subordinação da mulher

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A religião aliada ao direito, à literatura e à medicina durante séculos trabalhou de forma árdua para justificar por meio dos discursos a condição de subordinação da mulher, impondo ao seu sexo uma fragilidade mental e corporal que implicaria na sua incapacidade de atuação na esfera pública, ou seja, o seu destino "natural" seria o tripé: mãe - esposa - dona de casa. É por essas e outras que o feminismo incomoda tanto à Santa Igreja!

Com as redes sociais os discursos se tornam públicos com uma fluidez de informação e vigilância jamais vista. Mensagens postadas na web se tornam alvo de jurisdição, como no caso dos suspeitos de ameaçar estudantes do curso de ciências sociais da UnB, que já tinham sido denunciados por incitar a violência contra negros, homossexuais, mulheres, nordestinos e judeus na internet.

Preconceitos e desigualdades

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Certa vez me vi surpreendida com o post de um conhecido que compartilhava a imagem da página identificada por Orgulho Hetero. A justificativa foi a de que a imagem era engraçada. Um simples post como esse, ainda que indiretamente, corrobora para a manutenção de preconceitos e desigualdades e também para tornar justificáveis atitudes como a descrita anteriormente no caso da Universidade de Brasília e/ou as rotineiras piadas dos humoristas. Afinal, todo discurso é político (você gostando de política ou não), na medida em que carrega uma ideologia que se legitima na fala de cada um de nós. Os discursos podem funcionar de maneira a manter ou modificar as estruturas. O que tudo isso quer dizer na prática? Uma imagem aparentemente "inocente" e engraçada, não raras vezes, carrega a mesma ideologia defendida por aqueles que pregam ódio e intolerância a determinados grupos.

Basta observar que toda ação violenta e discriminatória é precedida por discursos de desqualificação e demonização de certos indivíduos, a tal violência simbólica conceituada por Pierre Bourdieu. Os skinheads e sua ideologia nazista, via de regra, justificam como uma forma de "preservar a família e os bons costumes" ataques contra homossexuais. O que não se dissocia por completo do discurso de Ratzinger. O que há em comum entre os ataques homofóbicos de grupos neonazistas, as piadas "stand up", o pânico moral implantado pelo líder católico e o post aparentemente engraçado do orgulho hetero? A mesma ideologia por detrás do discurso.

Por Priscila Cristine Souza  –  souza.priscilacristine@gmail.com

19 Comentários

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  • Carlos Carvalho

    Rafael, não precisa temer que eu não tenha lhe entendido. Eu lhe entendi. Não há nada de difícil entendimento entre as nossas posições. E aceito seu pasmo diante da minha afinidade com o discurso do Malafaia. É que Narciso acha feio o que não é espelho.

  • Rafael França

    Ao colega Carlos Carvalho:

    Caro Colega,

    temo que não tenha compreendido o conteúdo do meu posto. Vamos lá, desfazendo alguns mal-entendidos. Primeiramente, considero digno e louvável que todos nós tenhamos nossas convicções (o mundo carece um pouco disto), mas me causa espanto pensar que as mesmas sejam dadas como imutáveis, tanto mais quando são carregadas de preconceitos e ignorâncias. E, atenção, não disse que é impossível que alguém goste de ouvir o Sr. Silas Malafaia, apenas pontuei que me causa espanto que ainda se argumente que os direitos requeridos pelas minorias (no caso, os/as homossexuais) sejam um privilégio. É bastante óbvio que muitos acreditem, concordem e reverberem as palavras proferidas pelo referido pastor, pois se assim não fosse, nem teríamos, talvez, que ficar nesse nível de discussão. E é justamente isso que me causa maior espanto, Carlos Carvalho; pensar que ainda precisemos discutir sobre que é mais ou menos humanos, enquanto que a luta fundamental é para que todos e todas sejam considerados humanos, e que tenham seus direitos respeitados - uma realidade ainda distante do mundo que experimentamos.

    Preste muita atenção na frase que você apresentou: "E os privilégios que a tal lei reserva, principalmente é o de colocar alguém na cadeia pelo crime de expressar suas opiniões"; você tem certeza que isso procede? Com um pouco mais de cuidado, atenção e honestidade, bem sabemos que não se trata disto. A não ser que você acate, indiscriminadamente, os discursos rasos e inconsequentes propalados pelos Sr. Silas Malafaia. Não pretendo discutir, agora, a PL 122 em si, mas hei de lhe advertir que não se trata de acabar com a liberdade de expressão. Somente alguém que ouve cegamente o Sr. Malafaia, pode acreditar que este projeto de lei vai acabar com a liberdade de expressão. Por gentileza, não confunda "liberdade de expressão" com "liberdade de agressão".

    E, no mais, penso que devamos ser maduros o suficiente para continuar o debate de maneira honesta e respeitosa; e que estejamos dispostos a pensar diferentemente da maneira como havíamos pensado até então. Quando nos permitimos ouvir, apreender e entender o novo, abrimos-nos para outros mundos, até então impensado.

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