Desde tempos remotos o discurso se apresenta como forma de impor uma verdade. Por mais bobo que possa parecer um determinado discurso, este sofre influência das regras sociais institucionalizadas, portanto, possuem legitimidade para validá-lo como "verdade" no meio social. Os discursos atuam como poderosas ferramentas de dominação. Quer um exemplo? O comentário do historiador Heinrich von Treitschke: "Os judeus são a nossa desgraça" (Die Juden sind unser Unglück), publicado numa revista alemã no século XX se tornou lema do nazismo alemão, um dos maiores genocídios da história da humanidade.
A questão é tão séria e complexa que uma das novas táticas da repressão política contemporânea, segundo o artigo de Lúcia Rodrigues, na revista "Caros Amigos", são os processos jurídicos para a intimidação dos discursos não validados. O apresentador José Luiz Datena da Band é um exemplo disso, ao relacionar um crime bárbaro à "ausência de Deus" no programa "Brasil Urgente" no ano de 2010, causou à emissora um processo judicial por infringir a liberdade religiosa resguardada pela Constituição Federal. Curioso, meus amigos ateus nunca tiveram passagem pela polícia.
Bento XVI segue imune

Já o Papa Bento XVI segue imune com os seus discursos incitando a intolerância religiosa e, sobretudo, sexual - o seu alvo predileto. De acordo com o líder religioso, o casamento homossexual representa uma "ameaça ao futuro da humanidade". Não muito diferente do discurso que classificava como antinatural o casamento inter-racial, ideologia defendida pela mesma Igreja Católica Apostólica Romana até o século XIX.
Como podem perceber, os escopos se modificam com o tempo, todavia, os discursos permanecem praticamente inalterados, biologizando a diferença e colocando o "outro" num patamar de "inferioridade natural".
Subordinação da mulher

A religião aliada ao direito, à literatura e à medicina durante séculos trabalhou de forma árdua para justificar por meio dos discursos a condição de subordinação da mulher, impondo ao seu sexo uma fragilidade mental e corporal que implicaria na sua incapacidade de atuação na esfera pública, ou seja, o seu destino "natural" seria o tripé: mãe - esposa - dona de casa. É por essas e outras que o feminismo incomoda tanto à Santa Igreja!
Com as redes sociais os discursos se tornam públicos com uma fluidez de informação e vigilância jamais vista. Mensagens postadas na web se tornam alvo de jurisdição, como no caso dos suspeitos de ameaçar estudantes do curso de ciências sociais da UnB, que já tinham sido denunciados por incitar a violência contra negros, homossexuais, mulheres, nordestinos e judeus na internet.
Preconceitos e desigualdades

Certa vez me vi surpreendida com o post de um conhecido que compartilhava a imagem da página identificada por Orgulho Hetero. A justificativa foi a de que a imagem era engraçada. Um simples post como esse, ainda que indiretamente, corrobora para a manutenção de preconceitos e desigualdades e também para tornar justificáveis atitudes como a descrita anteriormente no caso da Universidade de Brasília e/ou as rotineiras piadas dos humoristas. Afinal, todo discurso é político (você gostando de política ou não), na medida em que carrega uma ideologia que se legitima na fala de cada um de nós. Os discursos podem funcionar de maneira a manter ou modificar as estruturas. O que tudo isso quer dizer na prática? Uma imagem aparentemente "inocente" e engraçada, não raras vezes, carrega a mesma ideologia defendida por aqueles que pregam ódio e intolerância a determinados grupos.
Basta observar que toda ação violenta e discriminatória é precedida por discursos de desqualificação e demonização de certos indivíduos, a tal violência simbólica conceituada por Pierre Bourdieu. Os skinheads e sua ideologia nazista, via de regra, justificam como uma forma de "preservar a família e os bons costumes" ataques contra homossexuais. O que não se dissocia por completo do discurso de Ratzinger. O que há em comum entre os ataques homofóbicos de grupos neonazistas, as piadas "stand up", o pânico moral implantado pelo líder católico e o post aparentemente engraçado do orgulho hetero? A mesma ideologia por detrás do discurso.
