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"Nem Serva, Nem Objeto" (1)

A festa da carne e as relações de gênero

No espetáculo do Carnaval, o que domina é a cultura de superexposição do corpo feminino para o deleite do olhar masculino

Viver bem  –  22/02/2013 16:12

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(Fotos Ilustrativas)

Mesmo com os avanços ao longo do tempo pela

movimentação das mulheres, as ruas ainda 

permanecem como espaços de atuação masculina

 

"Durante o Carnaval, somos todos iguais, as diferenças sociais desaparecem durante a festa", afirmou o insigne historiador José Murilo de Carvalho a respeito de uma das maiores festas populares do mundo, se referindo às fantasias e alegorias que mascaram a realidade. Entretanto, um atributo se apresenta indissimulável na festa da carne, o gênero. A mulher e os seus adornos ocupam um lugar central no espetáculo do Carnaval: porta-bandeira, rainha de bateria, "Globeleza". Não se trata, pois, de destaque, mas da cultura de superexposição do corpo feminino para o deleite do olhar masculino.

Em entrevista a "Time" no ano de 2009, o criador da "Playboy", Hugh Hefner (83 anos de idade), declarou que toda mulher é um objeto, não fosse por isso não haveria uma segunda geração. Mas tratou de explicar que o fato de serem objetos de desejo e domínio masculino não faria delas menos humanas. Talvez, por esta razão Hefner se declare "humanista e não feminista" (?). Estaria o "pai da Playboy" sozinho nessa mentalidade? E as mulheres que, via de regra, figuram como brindes nas propagandas de desodorante (na marca AXE fica explícita essa relação de poder) ou, então, mercantilizadas nos comerciais de cerveja? Em ambos os casos a mulher é representada como objeto de uso/consumo dos homens.

Um "espaço sexuado"

Mesmo em meio aos avanços obtidos ao longo do tempo pela movimentação das mulheres, as ruas ainda permanecem como espaços de atuação masculina e a cidade é, deveras, um "espaço sexuado" como já havia diagnosticado a feminista francesa Michelle Perrot. Todas essas situações supracitadas convergem para a reprodução de atitudes machistas e misóginas (2) e não é difícil percebê-las no cotidiano, sobretudo, nos ares de liberdade sugerida pela festa da carne: assobios, frases grosseiras chegando até mesmo a atitudes mais exaltadas como puxões de cabelo, braço e beijos forçosos. É a famosa liberdade que cerceia o direito a liberdade do outro, como a de ir e vir sem sofrer algum tipo de abordagem inconveniente.

Este sexismo das ruas demarca com legitimidade não somente os espaços de atuação, mas, sobretudo, as formas de atuação dentro dessas esferas. Dificilmente encontraremos, por exemplo, um grupo de meninas apalpando rapazes - sem concessão, ainda que fosse numa festa de Carnaval. Já o contrário nos soa costumeiro e o mais preocupante, se encontra naturalizado em nosso meio como sendo proveniente da "natureza do homem". Esse comportamento dito inerente ao sexo masculino insere a mulher num patamar de objeto que se encontra a serviço do seu bel-prazer. 

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Para Marcelinho Paraíba, lei é "exagerada"

Recentemente detido sob a acusação de estupro, o jogador Marcelinho Paraíba, que mordeu os lábios, puxou o cabelo e rasgou parte da roupa de uma mulher, declarou na coletiva de imprensa que a lei nº 12.015/2009 - que classifica como delito grave ações que ferem a dignidade sexual da pessoa - é "exagerada". De acordo com o depoente: "Acho que há certo exagero, mas temos que respeitá-la. O que posso dizer é que não extrapolei nenhum limite". Causa-me espanto pensar o que significa exceder limites ao referido jogador.

A tal lei "exagerada", artigo 214 determina que: "Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a praticar ou permitir que com ela se pratique ato libidinoso diverso da conjunção carnal: Pena - reclusão, de seis a dez anos". Em outras palavras, beijar alguém a força é crime e pode render alguns anos de prisão, ações consideradas comuns no Carnaval, haja visto Salvador - BA.

A coordenadora da SPM (Secretaria Estadual de Políticas para Mulheres), Maria Alice Bittencourt, é categórica ao afirmar que "o beijo forçado é sim uma violência sexual. Ninguém pode invadir o corpo de outra pessoa a força. Isso é crime e não devemos aceitar coisas como essa". Ademais, a violência de gênero transcende a outros marcadores sociais: raça, credo, classe social e ao contrário do que pensa o senso comum, a violência física é apenas o estágio final, na medida em que, a violência contra a mulher é verbal, psicológica, moral ou simbólica e sexual. No Brasil, a cada 15 segundos uma mulher é vítima de agressão.

As relações de poder entre os gêneros

A finalidade do presente texto é propor a discussão das relações de poder entre os gêneros estabelecidas nas ruas, especialmente em dias de Carnaval. Ainda que não haja o beijo forçado, os olhares aliciadores, não raras vezes, intimidam, coagem, limitam os espaços impondo uma espécie de fronteira: por onde andar, com quem andar, o que vestir e como se portar. Diferente do flerte que se consiste na paquera de discreta insinuação entre pessoas, esses olhares mencionados anteriormente, longe de serem produções subjetivas são construções sociais articuladas com a cultura e as instituições que legitimam essas relações de poder entre homens e mulheres podendo assumir formas simbólicas (como olhares aliciadores) até mesmo formas extremas de hostilidade e intolerância: insultos, xingamentos e violência física.

Os rapazes aprendem desde cedo que eles são "caçadores" e as meninas "as presas" que devem ser conquistadas e domadas. As novelas e filmes acentuam esse pensamento, onde depois de roubar um beijo da mocinha os dois vivem um tórrido romance.

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Padre culpa as mulheres 

De acordo com um padre de San Terenzo (Itália), Don Piero Corsi, as 118 italianas que morreram em 2012 vítimas da violência teriam ultrapassado o "limite" da decência. Afirmou o pároco: "As mulheres com roupas justas se afastam da vida virtuosa e da família e provocam os piores instintos dos homens". Ainda incitou em sua declaração que a autossuficiência e arrogância das mulheres é que são os agravantes para a violência sexual.

Para os defensores do conservadorismo e do machismo, por vezes enrustido, que devem estar pensando: "mas também usando minissaias e blusinhas decotadas, querem o que?". Saibam que mulheres de burca são estupradas e têm sua dignidade sexual violentadas também. Um estudo realizado pela Fundação Thomson Reuters revelou que o Afeganistão é o país mais perigoso para mulheres. Então, a questão não é a vestimenta, o cabelo (no caso da burca) ou a maquiagem e sim a cultura que "ensina as mulheres a temer, não os homens a respeitar", como aponta o cartaz da marcha.

Não é uma característica instintiva

É importante entender esse processo de relação de poder entre os gêneros como sendo provenientes da produção sociocultural que não tem relação com a natureza, uma vez que a violência, seja simbólica ou não-simbólica, não deve ser considerada uma característica instintiva e, portanto, legitimada no meio social.

Dessa forma, a autora espera contribuir para uma reflexão em torno das engrenagens e mecanismos do machismo e da misoginia e com isso chamar atenção para uma problemática - violênciaS contra a mulher - que têm se tornado cada vez mais cotidiana e banalizada na sociedade. Aproveitando o ensejo, me utilizo de uma campanha realizada no ano de 2011 pelo PSTU: "Respeite as mulheres no Carnaval e no resto do ano! Não à violência machista!

(1) Trecho da música "Desconstruindo Amélia" - Pitty.

(2) Repúdio às mulheres. Crença na ideia de inferioridade do sexo feminino em relação ao masculino.

Por Priscila Cristine Souza  –  souza.priscilacristine@gmail.com

17 Comentários

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  • priscila cristine

    Pseudo cientista? rs... incrível como não se tem respeito a títulos acadêmicos no Brasil, sobretudo, por cristãos fundamentalistas. Mas obrigada por compartilhar conosco o vídeo Carlos Carvalho.
    Já em relação a questão da "porta bandeira" que tanto incomodou Luiz Alvaro (que ainda não havia aparecido por aqui nos comentários da Coluna), não quis afirmar com isso que a aparição da porta bandeira tem a mesma ênfase na superexposição do corpo como a garota propaganda da cerveja "X" e "Y". Mas na cultura do carnaval a mulher é sempre central. A fim de elucidar minha intenção no texto, transcrevo o seguinte trecho:

    "Entretanto, um atributo se apresenta indissimulável na festa da carne, o gênero. A mulher e os seus adornos ocupam um lugar central no espetáculo do Carnaval: porta-bandeira, rainha de bateria, "Globeleza". Não se trata, pois, de destaque, mas da cultura de superexposição do corpo feminino para o deleite do olhar masculino". Muito embora, a Porta Bandeira esteja mais "coberta" do que as demais mencionadas, e partes do seu corpo não fiquem visíveis devido as fantasias, ela tem um papel central aos olhos que miram a festa do carnaval. Caso não tenha entendido dessa forma, ela (porta bandeira) aparece no trecho do texto que tem por objetivo evidenciar essa "concentração" na imagem feminina.

  • Luiz Alvaro

    "porta-bandeira" como exemplo da "cultura de superexposição do corpo feminino para o deleite do olhar masculino"? De onde tirou isso? Parei aí...

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