O objetivo deste artigo é resgatar no passado uma via para nos levar ao reencontro com o “homo universalis”. Resgatar a polimatia. Deixar um aviso às gerações para que elas se interessem por conteúdos diversos, para prevenir a estagnação do conhecimento. Desenvolver uma proteção contra o vício imposto pelas redes sociais, que afastam os indivíduos de uma visão panorâmica do mundo.
Aldous Huxley leu a Enciclopédia Britânica do começo ao fim, embora muito conhecido como o escritor de “Admirável Mundo Novo”. Esta proeza, triunfo, conquista, em dedicar um grande tempo da sua vida lendo esses volumes enciclopédicos, lhe outorgou o título de “enciclopédia ambulante”.
O que é o interesse pelo saber e como é aprender a gostar de conteúdos diversos? O que é o apetite pela intelectualidade? Alguns têm sede do “logos”, a palavra. Esta se resume no “saber”. É de onde garimpamos a pedra preciosa, a mais rara. Outros, todavia, se contentam com a trivialidade abundante das redes sociais. Embrutecem a sociedade com sua rejeição ao crescimento e às conversas intelectivas, bem como se atiram em direção a chacotas e parvoíces. Sem contar com as brincadeiras de mau gosto e o detestável e impróprio bullying.
Não existe, no entanto, um empecilho para a vontade individual. Afinal de contas, as vontades não são ditadas pelo próprio indivíduo, mas pela educação que se recebe do berço, dos amigos, do meio em que está exposto. Pela mídia, são “vítimas”. São considerados um algoritmo sem alma. As redes o pescaram. São, para eles, um peixe exposto num mercado, numa banca. Seus dados vazados, suas escamas. Elas conhecem profundamente seus desejos. Sua vontade não é mais sua. Muitos são moldados também como um jarro de barro frágil. Ali dentro colocam as flores que mais deseja. Também como um veículo autônomo cuja direção está fora do seu controle. As redes o conduzem para onde desejam. As redes o viciam, impondo uma cultura midiática que, na verdade, nunca desejaram.
As pessoas são livres. Já estão confusas se são elas mesmas ou cópia de quem seguem nas redes sociais. Contudo, nasceram livres para escolher o que querem saber. Têm a liberdade para o sim e para o não. A liberdade é assim, feita de caminhos para onde se quer ir. Alguns preferem ficar parados, recusando-se a progredir. Também são livres para não se deixarem levar pelo desconhecimento e sofrer nefastas e pavorosas consequências. A desinformação ou desintelectualização são responsáveis por grandes infortúnios na vida de muitos indivíduos.
Será que o saber exercido pela interdisciplinaridade será extinto como os dinossauros?
A especialização das ciências e da filosofia praticamente fez desaparecer o “homo universalis”.

Este, conhecido como o “homem da Renascença”, no século XVI, era composto por intelectuais, artistas e cientistas. Todos esses quesitos eram concentrados, na maioria das vezes, em uma só pessoa. Podemos citar dezenas desses personagens. Gênios que desapareceram com a especialização. A “polimatia” era comum no século XVI. Um polímata podia ser um pintor, um inventor, um físico, filósofo etc. Figuras como Leonardo da Vinci estão nesse rol. Surgiram dezenas deles nessa época. Da Vinci não foi o único. Ele é um belo exemplo da popularidade histórica que lhe conferiu, carimbando nele o título de “polímata”. Termo etimologicamente cunhado do grego, que significa “muito estudioso”, indivíduo de conhecimento generalizado, atuando em muitas áreas ao mesmo tempo.
O termo foi citado em 1621 por Robert Burton em seu trabalho “Anatomia da Melancolia”. Foi primeiramente usado por Johann von Wower, em “De Polymathia” (1603). Esse homem, nos meios culturais europeus, era comum por não haver ainda especialização nas ciências, o que ocorreria mais tarde. O clérigo calvinista Johann Heinrich Alsted compilou sozinho uma enciclopédia de sete volumes. Em seus dias, Leibniz foi também conhecido por sua máquina de calcular e por seu trabalho sobre a história medieval alemã, sem mencionar seus interesses por direito, teologia, sinologia, geologia, biblioteconomia e linguística (ele era interessado na história dos dialetos e estava consciente das semelhanças estruturais entre o húngaro e o finlandês). Mais conhecido como “matemático” e descobridor do cálculo integral, Leibniz foi uma das maiores figuras que representaram o polimatismo.
Será que o avanço das ciências depende de figuras com conhecimentos diversos, no vasto poder de transitar na diversidade encontrada na interdisciplinaridade? Ou será que a “especialização”, que está oposta ao polimatismo, acertou o seu “alvo”? A especialização foi necessária para resolver com minúcia os problemas intensos de nossa tecnologia? Melhorar nossa qualidade de vida? Que objetivos a ciência requisita dos homens na busca pelas verdades ocultas a serem desvendadas? Foucault disse que o espírito humano foi feito para encontrar a verdade. Mas interrogo: conseguiremos encontrá-las se não tivermos um “vasto conhecimento” entre muitas áreas para, ao ligá-las, chegar a descobertas científicas e filosóficas?
Encontramos, hoje em dia, profissionais despreparados em algumas funções que exigem conhecimento amplo. Quando sabem alguma coisa, não sabem outras. Clientes de alguns profissionais especializados se parecem mais como “iô-iôs” nas mãos de crianças; vão de um lado para o outro, para cima e para baixo. É comum ouvir de alguns profissionais que deveríamos procurar outro colega de profissão, porque sua área de atuação não era bem específica para aquele caso. Esse é o preço que se paga pela “especialização”. Profissionais mais antigos geralmente resolvem nossos problemas sem a ajuda de um “rol” de colegas de profissão. Estes antigos profissionais talvez sejam mais eficientes porque são generalistas. Não por terem estudado para ter vasto conhecimento generalizado em suas profissões, mas porque, em suas vidas, foram acumulando conhecimento. Com humildade, foram se certificando de que vale a pena conhecer muitas áreas, tanto quanto possível. Esse é o objeto do polímata.
A estrada do conhecimento nos leva a uma bifurcação. Se formos para um lado, seguiremos o caminho da especialização; se escolhermos o outro, seguiremos o da diversificação do conhecimento, que é o objeto da polimatia. A escolha é inevitável porque é dicotômica. A especialização é para quem quer um conhecimento específico. A polimatia, para quem quer evoluir e conhecer o máximo que pode ou se interessa.
Hoje vivemos o achatamento do conhecimento diverso. Foi retirada, na maioria das profissões, a força da dependência e da necessidade da polimatia. No entanto, é fundamental a formação de novos polímatas na educação. Precisamos desses “generalistas” quando nos lembramos do que Barrow chamou de “conexão das coisas e dependência das noções”. Espero que essa fragmentação do saber do “homo universalis” nunca seja extinta. Que uma chuva ácida contendo a ignorância não caia sobre a civilização. Homens desejam conhecer a verdade universal. Ela não está dividida. Encontra-se em uma pedra. A pedra filosofal que há tanto tempo o homem procura. Achando-a através da sua busca pelo conhecimento diverso, encontrarão melhores condições de vida para a humanidade.
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