(Foto Ilustrativa)
Temos de nos tornar mais antropofágicos, porque canibais são os que comem as esperanças para que sejam digeridas nos estômagos
Na obra “Pauliceia Desvairada”, Mario de Andrade usa uma linguagem dadaísta e enfurecida. Na verdade, todo esse incentivo veio do Futurismo italiano. Usou da antropofagia para desenvolver sua obra culminando na Semana de Arte Moderna de 1922.
Recortes de “Paulicea Desvairada”
Leitor: Está fundado o Desvairismo. Este prefácio, apesar de interessante, inútil.
“Este Alcorão nada mais é que uma embrulhada de sonhos confusos e incoerentes. Não é inspiração provinda de Deus, mas criada pelo autor. Maomé não é profeta, é um homem que faz versos. Que se apresente com algum sinal revelador do seu destino, como os antigos profetas".
Talvez digam de mim o que disseram do criador de Alá. Diferença cabal entre nós dois: Maomé apresentava-se como profeta; julguei mais conveniente apresentar-me como louco.
Sou um tupi tangendo um alaúde!
Veja que Mario de Andrade se sentia um índio Tupi tangendo um alaúde europeu querendo dizer que não abria mão de suas origens. Entretanto, incorporava a música barroca dentro de si mesmo sendo um silvícola. Foi um grande músico e professor de piano também.
Vamos recordar a irreverência dos artistas que quebraram paradigmas, tradições, mesmices, rejeitando modelos que necessitavam de uma repaginação.
Marcel Duchamp, um escultor dadaísta (início de século XX), expôs um urinol em uma exposição em Nova York. Também cravou uma roda de bicicleta num banquinho e chamou de arte. Seria o estilo de Mario de Andrade como “Pauliceia Desvairada” reprovado por uma banca examinadora de vestibular? Totalmente anacrônico (fora de sua época) e inusitado, os textos de Mario viraram a literatura brasileira de pernas para o ar. Será que teria a nota 1.000 se fizesse uma redação para o vestibular? A Semana de Arte Moderna foi um choque para todo o país. Villa-Lobos, o maior compositor brasileiro erudito, foi vaiado de pé nesta semana porque era diferente e não servia aos moldes dos críticos daquela época, rejeitando pensamentos musicais do século XIX.
A estrutura da “boa” redação deve ser perfeita, moldada de acordo com cânones pré-estabelecidos. A estrutura considerada correta para uma redação segue um modelo previamente estabelecido: introdução, desenvolvimento e conclusão, com argumentos organizados de maneira lógica e coerente. O aluno precisa se encaixar nesse formato, obedecendo a uma espécie de fórmula que determina como suas ideias devem ser apresentadas para alcançar uma boa avaliação.
O canibalismo literário é muito conhecido no âmbito da estética. Os artistas devem comer uma cultura para incorporar ao seu corpo e mente. Esta nada mais surge como o corpo de uma nova e repaginada cultura. O canibalismo difere do antropofagismo. O primeiro come para matar a fome e o segundo para que a carne, uma vez ingerida, se transforme em uma qualidade que aquela cultura tem.
Índios antropófagos comiam partes do corpo de um guerreiro inimigo para incorporar a força e as qualidades que este tinha quando estava vivo. Oswald de Andrade viajou para a Europa em 1912 e trouxe no bolso o “manifesto futurista de Marinetti”. Voltando novamente à Europa, conheceu Pablo Picasso, pintor e escultor cubista. Após seu regresso ao Brasil lançou a “Revista de Antropofagia”. Sempre argumentou que deveríamos perceber outras culturas devorando-as. Consequentemente, antropofagisando-as, criando um novo estilo. Esse fenômeno usado por ele, Mario de Andrade e outros, deram origem à Semana de Arte Moderna de 1922.
O novo estilo é assim, chocante, insultante, quebrador de regras e doutrinas pré-estabelecidas. Se examinadores pudessem e tivessem a chance de examinar uma redação diferente e anárquica, será que poderiam afirmar:
“Este será um dos grandes escritores, inventores, solucionador de problemas para nosso país”?
Se não progredirmos em nossas opiniões e estilo, não avançaremos.
Nas ciências acontece de forma análoga. Muitos duvidaram de Higgs porque afirmava que seu bóson estava lá. Demorou décadas para que sua teoria fosse confirmada experimentalmente e para que ele recebesse o Prêmio Nobel, juntamente com François Englert. Pascal foi contestado ao tentar provar que o vácuo existia; hoje este existe até nas embalagens de supermercado.
Esses exemplos, citados acima, são as grandes cabeças guerreiras e pensantes da história que não temeram em serem diferentes, peitando o modelo cansado de sua época. Quebraram doutrinas, regras, paradigmas. Na verdade, estas regrinhas são herança da intelectualidade tradicional, que deseja manter sua “hegemonia” através do marasmo científico e literário.
Temos de nos tornar mais antropofágicos, porque canibais são os que comem as esperanças para que sejam digeridas nos estômagos. Antropofágicos são aqueles que querem fazer crescer a cultura, mudar o que já está ultrapassado.
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