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Arte em Ebulição

Ricardo Yabrudi

yabrudisom@hotmail.com

A Arte Pela Arte

Literatura: um doce que poucos experimentam

É preciso devolver à leitura a emoção, o espanto, o prazer da descoberta, culminando no êxtase

Colunistas  –  18/09/2026 19:16

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(Foto Ilustrativa)

É preciso degustar a literatura, saborear suas palavras, suas imagens, seus personagens, suas histórias

 

. Instagram: ricardo_@yabrudi

Doce de leite? Huuuummm! Profiteroles com sorvete e ganache de chocolate?
Manjares? Esse era servido aos deuses do Olimpo através da ambrosia. Esta é associada a algo doce e perfumada. Também os deuses da mitologia grega se serviam de uma bebida, o néctar, também associado ao mel e a substâncias adocicadas. Essas duas iguarias divinas, a ambrosia e o néctar, estavam associadas à imortalidade e à juventude eterna dos deuses. Os humanos também se fartam desses manjares.

A literatura, analogamente, pode ser entendida como um doce. Esse é o objetivo deste artigo: criar uma imagem adocicada da arte literária, pouco experimentada pelos jovens e por outras faixas etárias.

Essa arte é sentida pela visão, pelo cérebro, pelo entendimento. Muitos discípulos estudam os períodos artísticos e literários em sua formação escolar. Estudam Homero, o grego da Antiguidade, com sua "Ilíada" e sua "Odisseia". Em Roma, Virgílio. Na Idade Média, Dante Alighieri, com a "Divina Comédia". Estudam as técnicas de escrita da Renascença, do Barroco, do Classicismo, do Romantismo, do Arcadismo e de muitos “ismos”.

A literatura brasileira é fantástica. Estudam a irreverência de Mário de Andrade, com sua obra "Pauliceia Desvairada"; Haroldo de Campos, com sua "Galáxias". Os poetas mais doces: Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade.

São ensinados a compreender como funcionam os estilos, suas características, seu uso gramatical mais intenso, os gongorismos. Estudam as metáforas e como foram usadas abusivamente. As figuras de linguagem têm nomes específicos: prosopopeia, antítese, metonímia, anáfora, pleonasmo e uma vasta classificação. Porém, as frases lidas, fartas de figuras de linguagem, podem e devem produzir efeitos emocionais, é a catarse. Explodindo emoção como um vulcão interno. Esta é uma das experiências possíveis ao degustar a literatura e as outras artes. São ensinados sobre a técnica de uma série delas e sobre como foram usadas pelos escritores em suas poesias, seus romances, seus contos.

Pergunta:

- Será que alunos leem a "Ilíada", a "Odisseia", integralmente? "O Fausto", de Goethe, a "Divina Comédia"? Sorveram a beleza da poesia de Manuel Bandeira na publicação de suas poesias reunidas, como "Estrela da Vida Inteira"? E Drummond: sabem, conhecem suas crônicas do "Jornal do Brasil"? Suas poesias são sagradas. Guimarães Rosa estaria no ápice como nosso orgulho. Será que entenderiam o seu regionalismo profundo? Sabemos que ele anotou num caderno detalhes de sua peregrinação pelo sertão de Minas Gerais e da Bahia. Ele chamava de “Os Gerais”. Será que os alunos entenderiam a vida de um jagunço, de um sertanista, sem terem pisado numa fazenda centenária e conversado com colonos?

Para comer a doce literatura, é necessário comer o doce e raspar o prato.

Apenas observar o doce, sua forma, seu colorido, a montagem do prato, não é o suficiente. Ao comer um doce, é necessário conhecer a textura pela língua, o sabor através das papilas gustativas. Tanto o ácido quanto o próprio doce, como numa torta de limão. Entender o amargo do cravo num doce de abóbora. Assim, ao ler a Ilíada, sentiríamos esse mesmo amargo, como na morte de Heitor, filho de Príamo, o rei de Troia.

É melhor comer, saborear, degustar, gemer quando se delicia uma iguaria açucarada. Literatura guardada nas bibliotecas ou empilhada numa estante são doces petrificados. São como tesouros, joias guardadas, colares de pérolas nunca usados, diamantes em redomas nos museus.

Onde estará a “catarse”, do grego, (κáθαρσις)? Esta é uma das experiências mais profundas que a obra literária pode provocar: a emoção e a transformação interior. Esta é a função primeira da literatura, provocar emoção, como dizia, Umberto Eco. Na tradição da tragédia grega, a catarse está relacionada à experiência emocional provocada pela obra. Afinal, as obras literárias não foram escritas para serem reduzidas a classificações e rótulos.

A arte de um modo geral e especificamente a literária é para ser sentida, e não apenas estudada. Nietzsche nos recorda, em "A Visão Dionisíaca do Mundo", escrita em 1870, antes de "O Nascimento da Tragédia", a experiência das apresentações das tragédias gregas. Para ele, a experiência dionisíaca estava relacionada à embriaguez, ao êxtase e ao rompimento das barreiras da individualidade. O espectador era envolvido pela música, pelo coro ditirâmbico e pela encenação dos grandes dramaturgos, como Ésquilo e Sófocles. Nesse estado, experimentava uma espécie de comunhão que Nietzsche relaciona ao “Uno-Primordial” (todos espectadores em um).

Dessa forma, uma turma de literatura poderia experimentar o melhor dessa arte. Não apenas classificando, estudando períodos literários e fazendo comparações de estilos, mas experimentando o mais doce néctar e a ambrosia literária.

O Thauma, (θαvμα), vocábulo grego, que significa espanto, maravilhamento, assombro e admiração, também precisa estar conectado a essa experiência. Ele é o espanto, o maravilhamento, o assombro, a admiração pela obra literária. O discípulo precisaria experimentar o que uma obra oferece. Estudá-la, dissecá-la, como se fosse um objeto teórico, de maneira tão fria, pode afastá-lo das emoções profundas que deram origem às palavras do escritor.

O fato é que poetas, romancistas e contistas, dramaturgos, não escreveram para que suas obras fossem reduzidas ao estudo de técnicas, classificações e períodos literários. Escreveram para que fossem lidas, ouvidas, sentidas e experimentadas, degustadas do começo ao fim.

A literatura não deve ser apenas conhecida, estudada e classificada, mas, principalmente, experimentada. É preciso devolver à leitura a emoção, o espanto, o prazer da descoberta, culminando no êxtase. É preciso degustar a literatura, saborear suas palavras, suas imagens, seus personagens, suas histórias. O conhecimento técnico pode nos ensinar como o doce é feito; mas somente a experiência de prová-lo nos permite conhecer verdadeiramente o seu sabor.

Na cabeceira do quarto de um jovem existe um vazio a ser preenchido. Estão assentados apenas um abajur, algumas chaves, a carteira e seu celular carregando. É noite. Sua boca não está suja do doce literário. Ele boceja, segurando seu celular, acessando as redes sociais.

Pela manhã, na escola, alguém especial do corpo docente entra. Usa sua aula para ler, para comover e não apenas para ensinar técnicas literárias. Usa seu tempo para oferecer uma ceia açucarada. Enquanto retira palavras do texto que lê para os alunos, ele engasga. Não fala sobre as figuras de linguagem, nem classifica autores pelo seu estilo e período artístico. Apenas se comove e chora.

Pausa para o lacrimejar…

Ele está exaltado, aumenta sua voz. Declama versos de uma doçura nunca ouvida por jovens ainda inexperientes. Os ouvidos dos alunos percebem algo metafísico na profundeza das frases. É o sublime kantiano mostrando a doce face da arte. Alguns choram. Conseguiram sentir o doce, que antes lhes era apenas explicado como uma técnica, uma receita a ser decorada para ser respondida nas perguntas das provas. O sinal sonoro anuncia o recreio. Estão imóveis, envergonhados porque suas faces estão molhadas por lágrimas frescas. Aquele sentimento é novo. Entreolham-se. Estão envergonhados por estarem sob a custódia do pranto. Precisam se controlar. O professor sai de cena, vitorioso. Conseguiu, atingiu o feito mais precioso, mais nobre, a art pour l’art (a arte pela arte).

Aqueles jovens provaram o doce da literatura. Já não são mais os mesmos.

Permanecerão jovens enquanto a ambrosia e o néctar literário divino fizerem parte de suas vidas.

Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza. 

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