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O Valoroso Tempo da Música

A falta que faz o disco de vinil e certas aproximações musicais

Agora todas as canções estão confinadas dentro de um pen drive e a orquestra inteira cabe num dispositivo eletrônico

Colunistas  –  07/01/2014 10:25

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(Foto Ilustrativa)

Meu tio Ivaldo chegava todo fim do mês

com um disco de vinil delicadamente

envolvido em papel de presente

 

Minha família sempre celebrou a música. Éramos todos sonoramente unidos e, mesmo que um ou outro parente tocasse algum instrumento de maneira informal, em minha infância o respeito pela canção, seja ela de qual estilo fosse, se reafirmava lá em casa, quando meu tio Ivaldo chegava todo fim do mês com um disco de vinil delicadamente envolvido em papel de presente.

Eu ficava esperando ele desembrulhar com todo cuidado para não arranhar e descobrir quem era o artista da vez. Ficava intrigada quando, como num ritual, ele retirava cuidadosamente do plástico aquela "bolacha", como apelidavam, e convocava quem estivesse perto para que todos ficassem em silêncio ouvindo sua mais nova aquisição. E ficávamos contemplando todas as faixas tocadas, escutando a celebração harmônica promovendo nossa união. 

A positiva somatização da música
em sua trilha sonora particular
 

Foi assim que aprendi a admirar Martinho da Vila, Chico Buarque, Clara Nunes, Fernando Mendes, Roberto Carlos e esta turma toda que faz parte do imaginário popular que acredita na positiva somatização da música em sua trilha sonora particular. Eu pensava que o tamanho da capa era proposital, feito no formato para caber dedicatórias. Falando nelas, há pouco tempo achei num sebo no Rio de Janeiro um LP do Wilson Simonal. Estampada na capa estava ele sentado na areia da praia de smoking, óculos de sol tomando água de coco na maior habilidade com o título da obra: "Alegria, Alegria vol. 2".

O que me chamou atenção foi o preço mais alto.Todos os LPs custavam 10,00 e o dele estava custando três vezes mais. Perguntei ao vendedor porque o motivo daquela inflação e ele me respondeu: Você já viu a dedicatória atrás? Prontamente virei a capa e estava escrito: "De Zezinho para Cátia com todo amor de hoje, porque se amanhã não estivermos mais juntos as eternas músicas deste disco saberão cantar os nossos momentos felizes". Aceitei a justificativa da preciosidade daquela relíquia emocional. Não comprei, deixei para outro romântico entender e levar. Mas de vez em quando me pergunto se Cátia ainda namora este poeta. 

Não raro, todos os gêneros se misturam 

Acostumei com os CDs, agora todas as canções estão confinadas dentro de um pen drive e a orquestra inteira cabe num dispositivo eletrônico. Não raro, todos os gêneros se misturam. Elvis se apresenta dentro do fone de ouvido e logo em seguida vem Legião Urbana e por aí vai.

Não existe mais o ritual da audição em família, da apreciação da arte da ilustração. Não há espaços para as epígrafes que o sentimento registra de próprio punho na contracapa. Disco de vinil faz falta e certas aproximações também. E você? Já ouviu uma de suas canções preferidas hoje?

Por Elisa Carvalho  –  elisacarvalho.br@gmail.com

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