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Trabalho Cansativo e Desvalorizado

Vida de figurante

Quem não estiver fazendo figuração para acrescentar na documentação para seu registro de ator, melhor aproveitar seu tempo fazendo alguns cursos ou entrando para um grupo de teatro

Colunistas  –  25/08/2018 13:04

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(Foto Ilustrativa)

Figuração no mínimo ajuda a juntar material para um book, mas não eleva nenhum figurante ao cargo de ator; mesmo que o figurante possua registro de ator e esteja fazendo figuração como trampolim para sua carreira, dificilmente passará disso

 

Qual ator em início de carreira não teve que passar pela figuração? Há mais ou menos 30 anos, o caminho para o registro de ator para quem não cursava faculdade de artes cênicas exigia, entre a documentação, recibos de cachês em TV ou cinema e é claro que o jeito era tentar figuração em filmes e novelas.

Quem nunca passou pelos galpões de gravação do estúdio Herbert Richers S.A., na Rua Conde de Bonfim, na Usina, pouco depois rebatizado como Globo Tijuca? Ali funcionava um dos maiores estúdios de dublagem, além de gravações de diversas novelas. O local dava pouca estrutura para os figurantes que muitas das vezes passavam o dia inteiro gravando sem ter o que comer, já que não havia cantina. Era muito comum os figurantes verem bandejas de guloseimas passar à sua frente e ter que se contentar apenas com o cheiro.

Lembro-me que foram dois dias seguidos de figuração: uma na novela “Tieta”, feita numa cidade cenográfica em Guaratiba, com muitos prédios, igrejas, várias ruas, praças, ruínas e até um circo abandonado. Ficamos, eu e meu amigo André, o dia inteiro para fazer uma cena dentro da igreja em que no meio da multidão nem nossa cabeça apareceu. Dia seguinte rumamos para a Globo Tijuca, o famoso Herbert Richers, na Usina. Chegamos bem cedinho para fazer uma cena na novela “Mico preto”. Desta vez eu só estava de companhia para meu amigo - não iria fazer a cena que era numa cela cenográfica dentro de um dos galpões, e só para homens. Não tivemos tempo de levar nada para comer. A fome foi apertando tanto que combinamos em dar uma esbarrada em um dos garçons que passava com uma dessas bandejas de sanduíches para o café da tarde dos globais. Conseguimos que ele derrubasse um único sanduíche, que catamos do chão e dividimos ao meio.

Ainda hoje é assim: figurantes no máximo conseguem um lanchinho básico. Isso quando não tem que se contentar com o cheiro e observar de longe maxilares se movendo freneticamente destruindo qualquer coisa que pra quem está no vácuo pode ser considerado o “manjar dos deuses”. Os “apertos’ que passávamos na corrida por um registro que nem todos nós conseguíamos ou levávamos anos para conseguir eram muitos. Quem ainda tinha um local para dormir no Rio de Janeiro, estava no lucro. Muita gente sem grana para fazer bate-volta ia dormir na casa de algum colega figurante que conheceu ali mesmo e muitas das vezes era em favela braba mesmo. A grana da figuração nem cobria os gastos que tínhamos com as caras passagens de Barra Mansa para o Rio.

Os apertos às vezes eram compensados por um minuto de prazer ao lado de um ator querido. Desta feita, Gloria Pires confundiu meu amigo com algum conhecido dela e puxou o maior papo. Ele entrou na onda e se passou por quem ela pensou que ele era. Ficamos batendo papo com ela pelo menos uns 15 minutos. ela nos apresentou mais dois outros atores famosos, que se juntaram aos nossos papos. Através deles, tivemos acesso ao local onde ficava o figurino das novelas ali gravadas e meu amigo “pegou emprestado” de lembrança, a gravata do Coronel “Artur da Tapitanga”, personagem de Ary Fontoura em Tieta.

Eram tempos difíceis. Figuração no mínimo ajudava a juntar material para um book, mas não elevava nenhum figurante ao cargo de ator. Ainda hoje é assim. Mesmo que o figurante possua registro de ator e esteja fazendo figuração como trampolim para sua carreira, dificilmente passará disso. O figurante é uma figura importante dentro de um filme, novela ou peça teatral. É ele quem leva realidade às cenas, mas sua presença sequer é notada, salvo se for uma cena isolada, com poucos figurantes atuando ao mesmo tempo.

Nos anos 80, acompanhei um festival de teatro no Rio de Janeiro onde um figurante ganhou como melhor atriz. Se fosse hoje, com o advento da internet, ela com certeza seria notoriamente reconhecida. Durante toda a peça ela era uma velhinha que ficava quase que o tempo inteiro sentada no banco da praça. Sem dizer uma única palavra, ela roubava a cena e ganhou como melhor atriz. E bem merecido. É claro que ela era uma atriz. Era do grupo de teatro, mas ali, dentro do contexto, ela fazia as vezes de figurante. Foi a única vez que vi isso acontecer na vida.

Conseguir fazer figuração hoje não é difícil. Basta cadastro nas agências, emissoras de TV, acompanhar grupos da área nas redes sociais etc., mas é um trabalho árduo. Principalmente se for figuração para cinema, novela ou comercial. O ofício exige paciência, pois é de muito tempo de espera para gravação e de nenhuma valorização financeira, e que não há aí nenhuma possibilidade de ascensão. Salvo se o figurante tiver sorte. É só com a sorte que ele pode contar, ainda que algumas matérias sobre o assunto digam o contrário. Essa não é a melhor forma de começar uma carreira de ator. Acredite. Se você não estiver fazendo figuração para acrescentar na documentação para seu registro de ator, melhor aproveitar seu tempo fazendo alguns cursos ou entrando para um grupo de teatro. Estudar bastante e sempre. Esse é o caminho. Agora, se o seu intuito é apenas fazer um “bico” ou conhecer o mundo das gravações, embarque nessa e tenha uma ótima viagem!

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1 Comentário

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  • Andrea Garcia

    Parabéns, Rita Procópio. Tenho lido seus textos e estou gostando muito. São claros e objetivos. Não fica dando voltas com um vocabulário fora do usual e todos dá um norte, uma dica, uma ajuda para quem quer seguir na área e não sabe por onde começar. Ou pelo menos por onde não seria bom começar como se pensava. Continue assim. Ganhou uma fã. Abraços