(Foto Ilustrativa)
É o olhar treinado do escritor que vai identificar quais sensações escondem ideias mais ou menos valiosas
O mundo é um garimpo. É necessário garimpar muito todo esse lixo mental que reflete vivências, movimentos, registros, detalhes, emoções etc. para encontrar ali uma ideia genuína e lapidá-la no texto até que se torne bela e valiosa.
O ato de escrever é um ato ético, um movimento da mente criativa em busca de alguma ideia bruta, perdida nessa infinidade de cascalhos mentais aguardando ser lapidada para ganhar brilho e valor.
As ideias estão contidas no interior de cascalhos (sensações) aparentemente sem valor e aguardam pela lapidação para serem transformadas em algo reconhecidamente precioso. O escritor é esse garimpeiro experiente capaz de enxergar através da brutalidade das sensações uma ideia com potencial para ser despida e revelada. Quanto mais tempo imerso na escuridão do mundo observando as situações da vida, mais experiência e capacidade de enxergar o potencial de valor de uma sensação e dela extrair uma ideia genuína o escritor ganha.
A escuridão do mundo produz solidão e silêncio e a mente criativa quando mergulha nessa escuridão entra em contato com a diversidade de sensações e pode extrair delas insights preciosos. É o olhar treinado do escritor que vai identificar quais sensações escondem ideias mais ou menos valiosas. Quanto mais intensa a sensação, mais preciosa a ideia que se pode extrair dela por um processo minucioso de lapidação e, posteriormente, inscrição.
Tento ser esse garimpeiro-lapidador. Busco minha sanidade no caos epistêmico que me consome, que pesa minha mente produzindo uma enxurrada de pensamentos e fazendo-me perder em meio a uma infinidade de ideias vagas, aparentemente desconexas e sem qualquer vigor criativo, mas que está escondida na brutalidade do meu sentir.
O exercício ético da escrita me permite esse encontro com a brutalidade das minhas sensações, com esse intenso e solitário processo de garimpar na escuridão do meu ser cada sensação, identificando ali aquelas com potencial para, pelo rigor da lapidação, tornar-se não mais ideia bruta, mas palavras escritas, registros existenciais e fortuna epistêmica.
Ao escrever, o escritor retira das profundezas de si cascalhos sem valor e os transforma em valorosa força capaz de influir no êxito ou no insucesso do mundo em seu entorno, assim como em si mesmo na medida em que ao lapidar suas ideias para o mundo ele lapida a si mesmo.
É da solidão do garimpo, da sofreguidão do garimpeiro e da disciplina do lapidador que o mundo das ideias ganha brilho.
