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A História de João

Padrasto estrangulou criança que havia voltado a morar com a mãe

Garoto de 6 anos vivia na modesta casa da madrinha de batismo, no total conforto de usufruir seus direitos

Colunistas  –  01/03/2013 17:45

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(Foto Ilustrativa)

Irmãozinho de João agora vive com a madrinha

 

Ainda alimento secretamente nos recônditos de meu romantismo a esperança de que o verbo "esclarecimento" seja tão popular quanto campanhas de preservativos no Carnaval (parece que só nessa época é que se deve usar, mas tudo bem, consideremos assim). 

Vi gerações se transformarem e valores sendo substituídos por futilidades que jamais ousaria praticar. Isso não é novidade pra ninguém que gosta de observar comportamentos e dele traduzir uma explicação que manifeste indignação ou uma corrente satisfatória de surpreendentes expectativas cumpridas. 

Criança precisa de segurança 

Sempre defendi a tese de que criança precisa de segurança, mesmo que essa se defina na ausência de pais ou responsáveis por sua criação.

Na novela do horário "nobre", a protagonista foi mãe aos 14 anos e a avó da criança também foi mãe precocemente. Uma relação floreada de cumplicidade e parceria na ficção, só que a mesma arte que imita a vida pode também ser mascarada por paradoxos que passam longe da realidade. 

Presto muita atenção em todos com que converso, com que escuto e "no que meu irmão ouve". Esta simbiose verbal e auditiva já me levou a casos extremos de situações em que me envolvia demais com os dramas alheios e acabava por fazer amigos ou criar desafetos de opinião. 

Justiça determinou, e pronto 

Outro dia provoquei sem querer uma discussão no ápice do calor humano de defesa do direito de uma criança de estar pertencendo a um lar seguro ao invés de se submeter a convivência da mãe biológica. A Justiça determinou que a criança tinha que voltar para a companhia daquela que gerou e pronto. Não me apoiei em teorias rasas e nem em exercícios maternos que nunca terei, pois não gerei filhos naturais. 

Apoiei-me em diversas situações que presenciei com salutar impotência, uma delas em 2008, quando uma criança perto de mim, que aqui darei o nome de João*, com 6 anos apenas, viveu o drama particular de sair da modesta casa da madrinha de batismo, onde vivera por quatro anos no total conforto de usufruir seus direitos garantidos por um Estatuto, para retornar para a casa da mãe biológica que se arrependera de não estar perto dele e repentinamente apareceu dizendo que estava com saudades. 

Agora com um companheiro e grávida de outro filho, poderia ter a oportunidade de refazer a "família", em outra cidade. 

Fui repudiada em praça pública por defender a permanência de João na casa onde estava morando, mas não me importei e acreditei no meu instinto. 

Maus tratos, abusos e rejeição 

Mesmo com muitas relutâncias, João foi viver uma nova fase em sua vida, onde os maus tratos ficaram evidentes, os abusos também e a rejeição entrou em seu mundo através de surras e descasos com suas necessidades naturais de crescimento. Não dá para detalhar o cronograma de uma decadência, ainda mais se tratando de quem mal começou a se imaginar cidadãozinho do mundo. 

Pouco tempo atrás, soube da morte de João e viajei com sua madrinha para ir ao seu velório. João teve sua infância arrancada violentamente de seus direitos pelo egoísmo de uma pessoa, classifico apenas de "pessoa".

A certidão de óbito registrava morte por estrangulamento. Justiça feita: o autor doméstico do crime hediondo, o padrasto, estava preso e sentenciado de morte pelo poder paralelo (o que não tardou a acontecer). A mãe biológica que havia perdido a casa de apenas dois cômodos por falta de pagamento perdera também a guarda do filho mais novo, pois fora comprovada sua cumplicidade na omissão de um pedido de socorro, fora comprovado seu vício em drogas e álcool. 

Longos meses de angústia 

Semana passada, após longos meses de angústia e expectativa, comemoramos a vitória na Justiça pela guarda definitiva do irmãozinho de João, que também passou a viver com a madrinha na mesma casa simples mas requintada de esperança e virtuoses maternais. O irmãozinho mais novo voltou a dormir na mesma cama que João dormia. Enquanto comemorávamos com broa de milho e café, a madrinha me confidenciou:

- Devia ter lutado mais para que o João não fosse embora, seu eu tivesse mais força ele estaria aqui com a gente hoje, você não acha?

Fiquei em silêncio, mas seu olhar me exigia uma resposta.

- O lugar para todas as crianças "João" é como este aqui. Longe de tudo que não os tornem seguros e perto de um amor que não tem limites e nem padrões para ser concebido. 

Mal acabei de responder e fomos interrompidas pela voz do mais novo morador da casa, que se dirigiu a ela sorrindo:

- Mãe, quero biscoito.

Senti que João estava de volta ao lar.

Por Elisa Carvalho  –  elisacarvalho.br@gmail.com

1 Comentário

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  • Luiza Tostes

    Elisa só esqueceu de falar que a madrinha é tia das crianças. O texto merece respeito porque o que nós passamos nesta época foi muito difícil. Entrar de cabeça num caso tão delicado destes foi muito triste. Mas vencemos. Elisa é uma guerreira e tanto. Milhões de beijos.