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Literatura & Cia.

Jean Carlos Gomes

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A Literatura Como Autoconhecimento

Raquel Naveira será homenageada em livro da PoeArt

Escritora e professora universitária fala sobre literatura, mídias digitais, arte e crítica literária

Colunistas  –  05/02/2021 17:09

  • Raquel Naveira

  • Com a romancista Nélida Piñon e Sonia Sales

  • Com a escritora Lygia Fagundes Telles

  • Com a poeta Adélia Prado

 

(Fotos: Divulgação)

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“Sou uma apaixonada pela literatura. Escrever sempre foi a minha forma de expressão, de ser e estar no mundo. Sou totalmente fascinada pelo poder da palavra. É a palavra que cria a minha realidade”.

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A escritora Raquel Naveira será a homenageada no livro “Vozes de Aço XXIII”, resultado do XXI Concurso Nacional PoeArt de Literatura, realizado pela PoeArt Editora. Ela é escritora (com dezenas de livros publicados), professora universitária, crítica literária, mestre em comunicação e letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, autora de livros de poemas, ensaios, romance e infanto-juvenis. Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, à Academia Cristã de Letras de São Paulo e ao PEN Clube do Brasil.

Confira a entrevista com Raquel Naveira

Diante da crescente relevância das mídias digitais, que novo cenário se desenha para a literatura brasileira?

Os livros, as editoras, a tipografia, a impressão, as gráficas, as mídias digitais, tudo gravita na galáxia de Gutemberg. Tudo é suporte da arte da palavra. Interessante e democrática a opção de criar blogs, de postar poemas e textos, de exercitar o ofício no universo da internet. São muitas vozes, gritos, fragmentos e pulsões. Torna-se difícil um nome se firmar nesse oceano de telas líquidas, mas é apaixonante.
O papel das editoras independentes, de pequeno porte, acolhendo novos autores, publicando livros, servindo, ao mesmo tempo, de livraria virtual, ponto de venda e distribuição dos trabalhos, deu ânimo à literatura. O fato desses livros estarem conseguindo prêmios é uma resposta excelente, um caminho.
As compras pelos sites também modificaram bastante o cenário da relação livro/leitor.
Enfim, o sonho de escrever, o movimento entre tradição/bagagem de conhecimento e inovação/ousadia de experimentos permanece em infinitos ciclos. 

A constante crítica de que somos um país de poucos leitores interfere de alguma forma em sua atividade?

Não interfere. Sou uma apaixonada pela literatura. Escrever sempre foi a minha forma de expressão, de ser e estar no mundo. Sou totalmente fascinada pelo poder da palavra. É a palavra que cria a minha realidade. Sou a minha primeira e principal leitora.
Tenho desejo, é claro, de me comunicar, pois a literatura está na área da comunicação, que exige, conforme o linguista russo Roman Jakobson (1896-1982), os seguintes elementos: emissor, receptor, canal, mensagem e código. No caso da literatura, o autor é o emissor, o leitor é o receptor, o canal é o livro, a mensagem é o conteúdo do livro e o código é a língua portuguesa. Percorro todo esse processo, escrevendo, limando, revisando, publicando, amando o meu idioma. Faço a parte humana e criativa com afinco, dedicação, entrega física, espiritual e emocional. O resultado, o destino de um livro, seja qual for, é sempre mistério. Para mim, o tempo entre um livro e outro é uma pequena angústia. Um tremor. Um temor de não poder continuar até o último respiro.   

O que a literatura de mais satisfatório lhe proporciona?

O meu autoconhecimento. O espanto e a perplexidade de me surpreender sempre como uma desconhecida para mim mesma. A necessidade constante de empreender viagens interiores. De viver em mundos criados pelas minhas curiosidades, pelas minhas buscas, pela minha imaginação. Como escreveu o poeta português Sá de Miranda (1495-1558): “Não posso viver comigo/nem posso fugir de mim.

Qual é a função da literatura na sociedade?

Toda poesia genuína é insubmissa, tem atitude de indignação e revolta contra a situação social e política que vivemos. Em toda lírica, mesmo a mais romântica, há um substrato pessoal, um valor social. O poema age sobre o povo, modificando-o, dando-lhe voz. A obra de arte é um gesto, uma atitude, um ato político, uma expressão histórica de raças, nações, classes. O poeta é perigoso porque a poesia educa profundamente. A poesia tem magia e poder. A poesia solicita concentração, mergulho na vertigem da nossa própria humanidade.

Um crítico literário deve analisar apenas um poema ou a obra como um todo?

Enquanto crítica literária e leitora, posso ler um poema, analisar sua estrutura, seus símbolos e figuras de linguagem, sentir sua fruição. Independente de conhecer a obra do poeta ou, nem mesmo, o seu nome.
Quando estamos diante de um poema do qual temos várias referências sobre o autor e sua obra, naturalmente é um outro olhar, um outro peso histórico-literário.
O poeta deve apresentar a um crítico um conjunto de poemas consistente para análise e possível publicação.
Não sem antes obedecer à máxima de Horácio (65 a. C- 8 a. C.), um dos maiores poetas da Roma Antiga e também mestre do ofício da poesia, no seu clássico “Arte Poética”: “O poeta deve submeter sua produção a um crítico confiável e guardá-la por oito anos antes de publicá-la: a palavra lançada não sabe voltar atrás.” 

Uma mensagem aos autores iniciantes?

Recomendaria que lessem o livro “Cartas a um Jovem Poeta”, do poeta de língua alemã Rainer Maria Rilke (1875-1926). Transcrevo trecho: “Ninguém pode aconselhar ou ajudar, - ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranquila de sua noite: ‘Sou mesmo forçado a escrever?’ Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples ‘sou’, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade.” 

O que acha de nossa iniciativa de entrevistar/homenagear renomes de nossa literatura, fazendo além de uma justa homenagem, um fomento entre o autor consagrado e o autor iniciante?

Excelente o diálogo entre gerações de escritores.
Toda homenagem traz alegria, incentivo, conforto para o espírito, no sentido de com-força.
Em algum momento começamos, demos os primeiros passos, fizemos escolhas, deslanchamos a nossa história pessoal. Que está sempre ligada ao outro e ao tempo que vivemos.
Gratidão a todos. 

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