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Trocando Ideias

Rogério Luís da Rocha Seixas

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Modo Capitalista

A racionalidade meritória e o homo dispensatio

A sensibilidade sobre o valor da vida humana deve se sobressair ao que ela pode produzir/consumir ou ter/ser

Colunistas  –  01/05/2021 18:23

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(Foto Ilustrativa)

A própria vida se tornou uma forma de mercadoria, ao mesmo tempo que a gerimos para mais e mais sermos produtores meritórios; cada indivíduo é medido pelo que produz e consome

 

Não é nenhuma novidade que nossa atualidade, marcada pelas dicotomias produzir/consumir e ser/ter, revela um tipo de racionalidade vinculada à noção de mérito individual, para quem mais produza e, eventualmente, também para aquele que mais consuma. Essa é uma práxis comum ao modo capitalista de experimentarmos nosso cotidiano, empenhado na gestão do capital humano. Obviamente que produzir no trabalho e consumir o que se produz, inegavelmente faz parte da condição humano de estar no mundo. A questão é como toda essa mecânica de ser nos condiciona a um tipo de inumanidade cada vez mais intensa. Somos cobrados a produzir mais e, por consequência, consumir o que se produz. A própria vida se torna uma forma de mercadoria, ao mesmo tempo que a gerimos para mais e mais sermos produtores meritórios. Cada indivíduo é medido pelo que produz e consome. Estabelecendo-se a gestão de um mercado de vidas. Tal situação, ao fim das contas, acarreta numa forma de massificação, onde os que não se encaixam no padrão da racionalidade meritória ou se antes viviam totalmente sob sua égide, deixando de produzir e inclusive passando a consumir menos, tornam-se dispensáveis. Podem, inclusive, serem colocados à margem como sujeitos custosos ou ociosos. Inúteis a todo o aparato da racionalidade meritória.

Sendo assim, como não são mais considerados “cidadãos produtivos”, tornam-se despossuídos de muitos dos seus “direitos”, antes assegurados, enquanto faziam parte da massa de produção e consumo. Trata-se aqui da constituição do homo dispensatio (*Seixas, 2012). Um sujeito dispensável, descartável e administrado como um ônus a ser eliminado. Descartado pelo motivo de não ser mais útil. Nessa condição, coloca-se mais à margem, ganhando a identidade moral de “peso-morto a ser sustentado”. Torna-se um cidadão de segunda categoria. Esses sujeitos descartáveis, nada produzem e se constituem como um empreendimento perdido. São como parasitas do corpo social. Sua dispensa lhe determina uma responsabilização moral pela “crise que leva ao adoecimento econômico da estrutura social”.

Deve-se evidenciar que esse quadro denota importantes problematizações de fundo mais ético e político do que econômico. Desta forma, neste momento em que somos apanhados por uma intensa pandemia (novo coronavírus/Covid-19) que leva ao agravamento de uma crise de saúde, mas indubitavelmente, um quadro intenso de crise econômica, a sensibilidade sobre o valor da vida humana deve se sobressair ao que ela pode produzir/consumir ou ter/ser.

*Seixas, Rogério Luis da Rocha - A gestão da vida capital e a constituição do homo dispensai-o. Revista Inquietude, Goiânia, vol. 3, n° 2, ago/dez 2012. 

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