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Trocando Ideias

Rogério Luís da Rocha Seixas

rogeriosrjb@gmail.com

Âmbito Existencial

O humor e o riso em tempos aflitos

Uma paródia inteligentemente crítica se faz necessária para chacotearmos os negacionismos e obscurantismos que ameaçam destruir a alegria da vida

Colunistas  –  28/11/2021 20:33

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(Foto Ilustrativa)

Fazer rir e conseguir sorrir funcionam como obstáculos à produção de subjetividades ressentidas e mal-humoradas com as condições de sua existência 

 

Deve-se partir da noção de que o humor está presente desde que existe a humanidade.  Destaco que nessa nova troca de ideias trabalho inicialmente a noção de humor, enquanto uma arte. Colocando-me no seio da discussão, a capacidade de fazer rir necessita de um talento nato por parte do humorista. Dessa forma, não percebo o humor como mera frivolidade ou boçalidade. Também não pode ser considerado, segundo minha percepção, como mero divertimento. Soará cômico, mas considero o humor como uma atividade humana muito séria. Apesar de discordâncias referentes às minhas colocações que são muito benvindas, não podemos desconsiderar que o humor e a capacidade de rir inserem-se no fenômeno social. As exibições de riso e as manifestações de humor são um modo de comunicação, sendo compartilhadas nos processos de interação social. Essencialmente, em tempos aflitivos, que representam nossa atualidade, marcados pela crise pandêmica (novo coronavírus/Covid-19), que descortina um quadro de azedume, tanto social quanto político, a arte de fazer rir e a atitude de sorrir ganham dimensões importantes, no âmbito existencial.

Penso que a arte do humor carrega consigo grandes tarefas: resistir as tragédias, renovar os espíritos, criar perspectivas estéticas de convivência, provocar a ação de refletir criticamente sobre o nosso momento presente, a partir da gargalhada. O humor, não o simplório ou mercadológico, não debocha da dor da morte, como no caso das vítimas da Covid-19. Pode em realidade fornecer os meios de rirmos daqueles que dela debocham e a ignoram, desvelando criticamente sua ignorância e cruel insensibilidade para com o sofrimento alheio. Assim, o humor sério e artístico nos habilita a rirmos da barbárie humana e da banalidade do mal, não no sentido de mera diversão, mas como atitude criativa de combate ético e político contra essas mazelas da existência humana. 

A potência do riso, por sua vez, apresenta uma propriedade de corrosão. Segundo *Luigi Pirandello: “O humor, decompõe aquilo que a ilusão faz a cada um de nós, isto é, pela construção que cada um faz de si mesmo”, ou ainda, pela “interpretação fictícia e em dúvida sincera de nós mesmos”. Deve-se rir daqueles que acreditam estar para além do bem e do mal. Possuidores da verdade moral e poder absoluto. Desejosos de se impor sobre os outros.  Observa-se que naquilo que possui de corrosivo o riso decompõe ilusões, a começar pela ilusão da constituição de sentido para a vida, abrindo a possibilidade de que novos sentidos mais leves e alegres possam ser construídos. Todavia, não é a forma do riso vazio ou do idiotismo a qual nos referimos. Rir e gargalhar aparecem como formas de sabotagem e mesmo de autossabotagem que, no pensamento do filósofo alemão Nietzsche, estariam relacionadas ao prazer no absurdo oriundo da inversão de uma experiência considerada aflitiva em seu contrário. Esta é a “Grande Saúde” que se opõe ao riso enfermo e ressentido à existência. É de fato o riso jubiloso que nos liberta das enfermidades aflitivas da humanidade, iludida, ressentida e mal-humorada. O humor e o riso nos permitem amadurecer existencialmente.

Nietzsche compreende por amadurecimento, não o abandono do riso, mas o seu aprimoramento. Citando **Nietzsche: “significa reaver a seriedade que se tinha quando criança ao brincar”. (Nietzsche, GB/BM§94,71,2004)

Fazer rir e conseguir sorrir funcionam como obstáculos à produção de subjetividades ressentidas e mal-humoradas com as condições de sua existência. Só reproduzem ódios e pessimismos. São inférteis na capacidade de criar estilos de vida mais lindos e felizes. Podem negar a vida, provocando a morte. Dessa forma, uma paródia inteligentemente crítica se faz necessária para chacotearmos os negacionismos e obscurantismos que ameaçam destruir a alegria da vida.

*Pirandello, Luigi. O humorismo. Trad. Dion Davi Macedo. São Paulo: Experimento, 1996.
**Nietzsche, Friedrich W. Além do bem e do mal (GB/BM). Trad. Paulo César de Souza. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. 

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Por Rogério Luís da Rocha Seixas  –  rogeriosrjb@gmail.com

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