
(Foto: Reprodução/Internet)
"Que País é Este?" é um verdadeiro marco na literatura brasileira; traz conteúdos que vão além de versos e prosas
Analisar o livro "Que País é Este?", de Affonso Romano de Sant´Anna, é uma riqueza que nos informa e apresenta diversos momentos históricos do nosso país através da poesia. O livro é um verdadeiro marco na literatura brasileira; ele traz dentro de suas páginas conteúdos que vão além de versos e prosas. Podemos encontrar, de forma clara, as problemáticas relacionadas à organização social, política e econômica do nosso país.
Introdução
A pergunta "Que país é este?" que intitula a obra nos apresenta uma complexidade de "mazelas", buscando trabalhar de forma dinâmica e com uma nova ótica sobre temas emergentes como: a mulher e o amor, em uma perspectiva que foge da visão machista e retrógrada que predominava na literatura; o índio e a relação com o modernismo; o pré-anúncio da violência urbana; a implantação de uma consciência ecológica; a forte discussão da vida social brasileira em relação à bestialização social, que é muito bem trabalhada por José Murilo de Carvalho; a relação entre o homem e a sociedade capitalista, que historicamente é conceituada por Marx; e uma avalanche de temáticas que devora a nação.
Dentro do processo histórico, notamos que Sant´Anna promove uma revolução na literatura e na história, surgindo novos conceitos dentro da complexidade histórica, conceitos que "vão além da esquizofrenia de esquerda x direita, ricos x proletários e, por consequência, uma corajosa compreensão do que seja povo, não mais como uma categoria angelical e messiânica". O livro, verdadeiramente, se instituiu em um contexto que potencialmente se tornou uma alegoria de nosso tempo, um "projeto poético pensante".
O Brasil na perspectiva de Sant´Anna
Na narrativa de Sant´Anna, é possível notar que o processo histórico do Brasil é marcado por graves problemas em relação à própria estruturação deste "belo país", caracterizado por momentos de dor, tortura, exílio, medo e mortes. Na identidade nacional, podemos encontrar o ranço negativo que contribuiu para a formação e estruturação do Brasil de hoje. Até quando viveremos atormentados por essas mazelas que, de forma complexa, torturam este "povo brasileiro"? Será que um dia o indígena será reconhecido como cidadão, não mais sendo esquecido e permanecendo nas bases subterrâneas do mundo contemporâneo? O indígena também é humano, não "animais irracionais". Eles pensam, buscam, falam e têm uma história para contar. Aqui não há responsáveis, não há igualdade, não há um verdadeiro representante do povo. Mas, em contraponto, temos pessoas que são responsáveis pela corrupção, pelo abuso de poder e pelo autoritarismo que se tornou algo natural na sociedade atual. "Somos quem podemos ser?". Para ser sincero, é visível que não somos seres humanos; hoje, somos números, cartões, dinheiro e rótulos.
Quem é você? Você é um personagem que faz parte do sistema globalizador, um indivíduo distinto e, ao mesmo tempo, igual em relação ao processo de formação social, cujo poder é eliminar aqueles que se dizem contra o sistema. De forma poética e histórica, Sant´Anna nos apresenta uma sociedade atual, onde não podemos querer nos livrar das amarras sociais, mas devemos praticar o dever de ser personagens em uma sociedade que se diz "democrática", mas que, na prática, tem o voto "obrigatório". Um país que, na Constituição, afirma direitos iguais para todos os cidadãos, mas vamos analisar a realidade de cada indivíduo, partindo da sua própria realidade. Na aurora da construção social, devemos romper com as normas e finalmente nos tornarmos personagens que não mais serão vistos como figurantes, mas como protagonistas que buscam tornar a sociedade mais igualitária, justa e humana. Em pleno século XXI, ainda encontramos preconceito em relação à cor. Podemos citar o caso de Nuhu Ayuba, um nigeriano, estudante do curso de Engenharia Química da Universidade Federal do Maranhão, que sofreu humilhações por causa da sua "cor" (junho/2011).
"Quando os indivíduos de cor negra serão vistos da mesma forma que se vê um indivíduo branco?" Sant´Anna busca resgatar o sentimento de justiça em meio à sociedade contemporânea; mas onde está a justiça? Diga não à pedofilia. Pois podemos ver hoje, na atualidade, tal coisa acontecer em todos os lugares e de variadas formas, mas com um único ser: aqueles mais especiais e puros, como nossas crianças, que são usadas e humilhadas por monstros em forma de seres humanos.
Onde está a sensibilidade para ver e reconhecer o trabalho dos professores? A arte de ensinar é uma tarefa do professor, que se doa com o objetivo de ensinar. Mas qual é o valor da educação neste país? Até quando uma pessoa portadora de deficiência física ou mental será vista com indiferença na escola, na sociedade, no trabalho? Um ser circundado por olhares de compaixão e pena, quando, na verdade, deveria ser visto como exemplo de acessibilidade e igualdade para todos. Será que um dia ligaremos a TV e veremos filmes e novelas que representem a realidade do cotidiano na íntegra, sem censura, visando detalhar a verdade nua e crua? Queremos ver aquilo que a sociedade esconde debaixo dos tapetes. No desenrolar do discurso, não poderia deixar de falar das mulheres que conseguiram romper com a opressão da sociedade machista; no entanto, a maioria ainda vive sob o ranço ou até mesmo carrega a bandeira machista dentro de si.
Quando os verdadeiros "heróis" da nação vão se manifestar? A educação tornará o caminho para o progresso, e os professores terão o verdadeiro reconhecimento profissional? Um dia a verdade fará parte da nossa base política? O poder judiciário utilizará como lema a justiça e a veracidade dos fatos? Enfim, até quando viveremos a "era dos poderosos", dos grandes proprietários que controlam os grandes continentes e países? Os governantes precisam se preocupar mais com problemas que vivem camuflados dentro dessa sociedade que é governada por "corruptos sanguessugas". Precisamos rever nossas decisões e, na hora de votar, devemos escolher pessoas capacitadas e preparadas para defender a "nação", colocando em prática a famosa frase "ordem e progresso" de forma justa e correta. Segundo Sant´Anna, o ser humano deve ser respeitado como indivíduo no espaço social, não importa a sua condição sexual, religiosa ou econômica; pois, igualmente, pagam seus impostos. Os deveres são iguais, então os direitos também devem ser! Aqui não está em questão se ser gay é normal ou não.
O que não pode ser aceito é a violência que cresce a cada dia. Que país é este? Os governantes precisam fundamentar uma cartilha que ensine como é ser humano no sentido humanista, colocando o etnocentrismo como disciplina de discussão da vida, dos problemas enfrentados e dos conflitos coletivos que a sociedade vem enfrentando ao longo dos séculos. Assim, afirmamos que a sociedade se compõe de seres humanos, não de grupos exilados.
O papel da humanidade
Todos nós precisamos cuidar do nosso planeta Terra, evitando a poluição, devastações, destruição da natureza e do nosso planeta. Desde o início da vida na Terra, desencadeia-se uma guerra invisível entre seres microscópicos que lutam pela sobrevivência, em prejuízo de outros seres, como nós. Devemos nos conscientizar de que amanhã pode ser tarde demais e que o agora é o momento de lutar, de salvar o pouco que nos resta. Entretanto, precisamos cultivar a consciência de que os dias passaram; a vida, como uma sangria de versos, passará e nós todos morreremos, e a nossa existência passará como um breve pensamento que paira no ar.
Mas, mesmo assim, precisamos lutar por um mundo melhor para as futuras gerações. Até quando viveremos em uma sociedade compulsiva e capitalista? Quando os homens perceberão que a tecnologia é um bem favorável, mas que representa uma ameaça à vida humana? Onde está a sociedade humana pregada em muitos poemas, contos, crônicas e artigos espalhados pelo mundo afora? Por que tanta ganância e desejo de poder? A todo momento, a internet, o rádio e a TV noticiam a destruição causada pelo desequilíbrio da natureza; isso nos mostra que o mundo começa a dar sinais de alerta. O homem do século XXI deve buscar o progresso tecnológico, mas com uma visão ampla, onde se pode avistar o futuro de forma clara e saudável.
O meio de produção e a busca incessante pelo capital tornaram a humanidade meras peças que, a cada dia, contribuem para a destruição do meio onde se vive (Marx, 1982). Um verdadeiro efeito dominó, onde foram gastos anos para conquistar o "progresso”; em segundos, este progresso "destruirá o planeta".
O que está acontecendo com o mundo? O que se passa na cabeça dos homens? Sant´Anna promove fervorosamente um grito de libertação e esperança de dias melhores. Pois, em curtos intervalos, o mundo é abalado por catástrofes naturais, algo que o próprio homem plantou neste processo de busca constante por poder. Um jogo onde se coloca a vida de todos nós como preço de um sonho obsessivo e traiçoeiro, que projeta, destrói e transforma, e não nos avisa dos riscos que corremos. Japão, Austrália, África, Nova Zelândia, Tailândia, Haiti, Chile, México, Brasil e, amanhã, o mundo.
O que será da humanidade? As armas que foram criadas ao longo dos anos não poderão nos defender das forças naturais? O interesse pelo poder, além de trazer consigo grandes medos atuais, também faz renascer medos e fantasmas do passado; pois os japoneses, em pleno século XXI, temem uma catástrofe no claro, revivendo um terror que o país sofreu na Segunda Guerra Mundial, onde Hiroshima e Nagasaki foram bombardeadas e cruelmente destruídas. Sant´Anna, de forma clarividente, nos mostra que as cenas de terror das produções cinematográficas ganharam vida no mundo real, devorando e destruindo os sonhos de muitos. O medo assombra a vida do homem; no entanto, ele não deixa de desejar ter, ao invés de rever a situação que vivemos.
A humanidade propriamente dita está semeando o apocalipse e o que parece estar distante da nossa realidade, amanhã pode ser o cenário presente à nossa volta. Não sei se vivemos ou tentamos sobreviver. Viver é enfrentar as múltiplas diversidades da vida; viver é ser livre, mesmo quando todo mundo quer cuidar de nós. É ficar quieto e permanecer calado perante a sociedade que construiu normas e padrões de vida. Muitos têm interesse em saber da nossa história.
Dizem que estamos desligados e que, mesmo assim, eles sempre irão nos socorrer e até pedem para que tenhamos muito cuidado, pois viver neste mundo é muito perigoso e não devemos sair de casa. Mas, como sabiamente diz Sant´Anna, nós não devemos temer as construções sociais e as falsas realidades construídas pelas grandes instituições de nosso planeta. Onde está o "povo" deste país?
Viver é um hábito de cada um; não importa se eles querem que sejamos de uma forma, pois o que queremos é sair deste mundo de corrupção e de desigualdade entre os homens, que na constituição têm direitos iguais. Meu Deus, cadê a nação? Que país é este? Todos querem cuidar de nós, mas nós queremos cair e assim poder ver com clareza a verdade disfarçada em meio a ideias pragmáticas que foram construídas ao longo dos séculos e da história da humanidade. Muitos vão dizer que estamos errados e que viver é muito perigoso; eles vão perguntar se levamos muitas pancadas e sempre haverá um no poder que construirá um teatro para ouvir os nossos problemas, promovendo uma falsa ajuda. Porém, tais poderosos devem ficar cientes de que nós não estamos tristes e sim revoltados com a mídia, com os governantes, e queremos deixar claro que temos a nossa própria vontade, pois vivemos em um país que se diz democrático.
Conclusão
Na aurora da análise, notamos que o ser humano precisa resgatar sua independência coletiva e individual em relação à sua própria identidade cultural e nacional; pois os dias passam, a vida passará e nós todos morreremos, mas não podemos deixar que os "devoradores de colarinho branco" façam a raça humana perder a cidadania e a moral social, chegando ao fim, onde se espera a morte ou um milagre. Em suma, podemos afirmar com louvor que Affonso Romano de Sant´Anna é um dos sujeitos que escreve poesia sabendo o que é poesia dentro de um contexto histórico. É um homem além de seu tempo, um ser que se preocupa com a nação e com o planeta Terra. Notamos que sua contribuição para a literatura e para a história é imensa. Sua poesia não é algo improvisado, nem uma coisa "gratuita"; é um trabalho forjado por uma consciência intelectual que analisa o espaço e o meio social como um antropólogo, especificando em seus versos os fatos e utilizando uma linguagem historiográfica para descrever e problematizar a situação do mundo contemporâneo.
. Sant´Anna, Affonso Romano de. Que País é Este? E Outros Poemas. Rio de Janeiro: Rocco, 1984.
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